Orthodoxia Maçônica

Seguida da Maçonaria Oculta e da Iniciação Hermética

Tradução integral e literal para o Português do Brasil

Jean-Marie Ragon de Bettignies  ·  Paris, Collignon Livraire-Éditeur, 1853

"O mais sábio dos Maçons"  —  alcunha conferida por Albert Pike

⚠️ NOTA DE TRANSPARÊNCIA
Esta é uma tradução realizada por Inteligência Artificial, baseada na obra original. Produzida e publicada exclusivamente para o Dicionário Maçônico (dicionariomaconico.com.br).

📋 Sumário da Obra

Prefácio e Introdução
Parte I — Orthodoxia Maçônica
Parte II — A Maçonaria Oculta
Parte III — A Iniciação Hermética
Prefácio do Autor

Ao Leitor

Há muito tempo que a Maçonaria tem necessidade de um trabalho como este — um trabalho que não tema enfrentar as questões mais difíceis da nossa história e do nosso simbolismo, que não se contente com repetir as fórmulas consagradas pelo hábito, e que ouse perguntar, de cada instituição, de cada rito, de cada grau: de onde vens? Que verdade representas? Que bem produces?

A Maçonaria do século XIX herdou do século precedente uma massa enorme de ritos, de graus, de denominações e de cerimônias que se acumularam durante cento e cinquenta anos de invenção frequentemente arbitrária e de especulação às vezes interesseira. Nesse vasto depósito, há ouro e há escória; há ensinamentos de profundidade genuína e há invenções fantasiosas sem outro fundamento que a imaginação dos seus autores; há ritos que preservam uma herança iniciática autêntica e há sistemas que não são mais do que combinações de títulos pomposos e de cerimônias vazias.

O objetivo desta obra é fazer a triagem. Não por espírito de destruição — pois o autor desta obra é um Maçom que ama a sua Ordem e que lhe dedicou cinquenta anos de reflexão e de estudo —, mas por amor à verdade e por respeito pelos nossos Irmãos, que merecem receber uma herança intelectual e moral que seja genuína, e não uma coleção de curiosidades históricas empoeiradas.

O título que escolhi — Orthodoxia Maçônica — pode surpreender. Em que sentido pode a Maçonaria ter uma "ortodoxia"? A Maçonaria não é uma religião que define um credo e exige a sua aceitação. É uma Fraternidade filosófica e moral que busca a Luz — o conhecimento da verdade — por todos os meios legítimos que a razão e a experiência humana colocam ao alcance do iniciado.

Mas precisamente porque a Maçonaria busca a Luz, ela deve distinguir entre a Luz verdadeira e os fogos-fátuos que tantas vezes a têm substituído — as invenções históricas sem fundamento, as doutrinas esotéricas sem nexo, os graus artificiais sem substância iniciática. A "ortodoxia" de que falo não é a ortodoxia do dogma, mas a ortodoxia da história e da razão: o conjunto de verdades que os factos documentados e a reflexão filosófica honesta permitem estabelecer com segurança, em contraste com o conjunto de fantasias que a credulidade e a imaginação incontrolada produziram em nome da Maçonaria.

Esta obra está dividida em três partes. A primeira — Orthodoxia Maçônica propriamente dita — trata da história e da organização da Fraternidade: as suas origens, os seus ritos, os seus graus, os seus símbolos, a sua moral. A segunda — A Maçonaria Oculta — explora as conexões entre a tradição iniciática maçônica e as ciências menos convencionais do nosso tempo: a psicologia, o magnetismo, o estudo dos animais simbólicos, a investigação dos fenômenos que a ciência oficial ainda não sabe classificar. A terceira — A Iniciação Hermética — eleva o olhar para o horizonte mais largo da tradição iniciática universal: os Mistérios da Antiguidade, a Astronomia Sagrada, a Alquimia, a cosmologia dos Gênios e dos Espíritos.

O autor oferece este trabalho aos seus Irmãos com a humildade de quem sabe que a verdade é sempre maior do que aquele que a busca — e com a confiança de quem sabe que, na Maçonaria, a busca sincera da Luz nunca é em vão.

J.-M. Ragon, Membro da Loja Les Trinosophes, Paris, 1853.
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Introdução

Sobre o Estado da Maçonaria no Século XIX

A Maçonaria que o século XIX herdou do século XVIII apresenta-se ao observador atento como um conjunto paradoxal: é ao mesmo tempo a mais universal das instituições humanas e a mais dividida; proclama a união de todos os homens sob os princípios da fraternidade e da virtude, e está dividida em centenas de ritos e de sistemas que frequentemente se ignoram ou se hostilizam mutuamente; afirma guardar uma tradição iniciática de antiquidade imemorial e não pode documentar com segurança a sua história para além de 1717.

Este paradoxo não é acidental. É o resultado previsível de um processo histórico específico: o entusiasmo com que a elite intelectual do século XVIII se lançou sobre a Maçonaria recém-fundada e a transformou em veículo de todas as suas aspirações filosóficas, religiosas e políticas. Os filósofos iluministas viam na Maçonaria a realização prática da tolerância e da razão. Os neoplatônicos e os hermetistas viam nela o depositário das tradições iniciáticas da Antiguidade. Os cavaleiros jacobitas viam nela um meio de resistência política. Os jesuítas — se a interpretação de muitos historiadores for correcta — viam nela um instrumento de influência sobre a elite laica. E assim, cada um ia acrescentando à Maçonaria os seus próprios graus, os seus próprios ritos, as suas próprias narrativas de origem, até que a Fraternidade se tornou uma floresta densa de sistemas sobrepostos e frequentemente contraditórios.

O primeiro dever do Maçom pensante diante desta situação é o discernimento. Não o ceticismo destrutivo que rejeita tudo, mas o discernimento inteligente que distingue o que tem fundamento do que não tem; que honra a tradição genuína sem confundi-la com a invenção fantasiosa; que reconhece na Maçonaria uma missão filosófica e moral autêntica sem por isso aceitar como verdadeiro tudo o que se proclama em seu nome.

Este discernimento começa pela história. A história da Maçonaria deve ser estudada com os métodos que a historiografia moderna exige: com base em documentos datados e verificáveis, com espírito crítico diante das afirmações não documentadas, com a consciência de que as "tradições" maçônicas — por mais veneráveis que pareçam — não são provas históricas enquanto não forem corroboradas por fontes externas.

Aplicando este método, o que encontramos? Encontramos uma Fraternidade de origem relativamente recente — cujos documentos mais antigos não recuam além do século XIV, e cuja forma especulativa moderna data indubitavelmente de 1717 —, que se construiu sobre uma herança operativa medieval genuína e sobre uma série de influências filosóficas e esotéricas do século XVII. Esta origem é suficientemente honrosa e suficientemente rica para dispensar os embelezamentos fantásticos que muitos lhe quiseram atribuir. A Maçonaria que é filha do humanismo renascentista, da filosofia hermética, da ciência newtoniana e do espírito iluminista do século XVIII é uma instituição muito mais interessante e muito mais filosoficamente rica do que a Maçonaria que pretende descender de Hiram Abif, de Noé, de Moisés ou de Pitágoras.

Primeira Parte

Orthodoxia Maçônica

História crítica, organização, ritos, graus, simbolismo e moral da Maçonaria

Capítulo I

As Diferentes Opiniões sobre a Origem da Ordem

Da pretensão de uma antiguidade imemorial às conclusões da crítica histórica

Nenhuma questão da literatura maçônica foi mais debatida, e nenhuma deu origem a uma maior quantidade de afirmações inverificáveis, do que a questão da origem da Fraternidade. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, a Maçonaria foi apresentada como herdeira direta de quase todas as grandes instituições e tradições da história da humanidade — uma cadeia de reivindicações que diz tanto sobre o entusiasmo dos seus autores quanto sobre a fraqueza das suas evidências.

A teoria da origem salomônica: A tradição mais amplamente difundida — e a que está mais solidamente enraizada no ritual do Craft — é a que liga a Maçonaria à construção do Templo de Salomão e ao personagem de Hiram Abif. Segundo esta tradição, a corporação de artífices que Salomão organizou para a construção do Templo seria o protótipo direto de todas as Lojas Maçônicas subsequentes, e os graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre teriam sido instituídos por Salomão, por Hirão rei de Tiro e por Hiram Abif respectivamente. Esta tradição tem a vantagem de fornecer ao drama ritual do Terceiro Grau um contexto narrativo coerente e impressionante. Tem a desvantagem de ser historicamente indemonstrada: não há nenhum documento pré-setecentista que estabeleça esta conexão com a precisão que os seus defensores pretendem.

A teoria pitagórica: Uma segunda tradição — frequentemente invocada nas cerimônias do Segundo Grau — liga a Maçonaria à escola de Pitágoras de Samos e aos seus ensinamentos sobre a geometria sagrada, os números e a harmonia do cosmos. Esta tradição tem mais substância filosófica do que a tradição salomônica: os ensinamentos pitagóricos sobre a geometria, a música e a astronomia são genuinamente afins ao simbolismo maçônico. Mas a conexão histórica directa entre a escola pitagórica do século V a.C. e as Lojas Maçônicas do século XVII d.C. não é documentada.

A teoria egípcia: Uma terceira tradição — muito popular nos círculos do Rito Egípcio e do rito de Mizraim — afirma que a Maçonaria descende diretamente dos sacerdotes do Egito Antigo e dos seus Mistérios de Ísis e Osíris. Esta teoria foi defendida com grande eloquência e com pouca evidência por Cagliostro, por Court de Gébelin e por outros. Ela tem o mérito de identificar corretamente uma das fontes filosóficas do simbolismo maçônico — os Mistérios Antigos, de que os Mistérios de Ísis e Osíris são o mais importante exemplo —, mas confunde influência com derivação histórica direta.

A teoria templária: Uma quarta tradição — particularmente cara ao Rito Escocês e aos seus graus cavalheirescos — afirma que a Maçonaria descende dos Cavaleiros Templários que sobreviveram à supressão de 1312 e que transportaram os seus segredos para a Escócia sob a proteção de Robert Bruce. Esta teoria foi desenvolvida com grande habilidade por von Hund e pelos seus seguidores na Alemanha do século XVIII, mas não resiste à análise histórica: não há nenhum documento que estabeleça a continuidade institucional entre os Templários medievais e as Lojas Maçônicas escocesas.

A conclusão histórica: Depois de examinar criticamente todas estas teorias de origem, o historiador honesto é forçado a uma conclusão mais modesta — mas não menos interessante — do que qualquer uma delas: a Maçonaria Especulativa é uma instituição do século XVII e do início do século XVIII, que se desenvolveu a partir das corporações medievais de pedreiros inglesas e escocesas, sob a influência intelectual do hermetismo, do rosacrucianismo, da filosofia natural e do humanismo do período. A sua fundação formal data de 1717, com a criação da Grande Loja de Londres. Tudo o que precede 1717 é ou pré-história (a tradição operativa medieval) ou mitologia fundadora (as narrativas de Hiram, de Salomão, de Pitágoras). Ambas têm valor — a pré-história como documento histórico genuíno, a mitologia como sistema de símbolos pedagógicos —, mas não devem ser confundidas com a história factual da Ordem.

Capítulo II

A Origem Moderna da Maçonaria

A Grande Loja de Londres de 1717 e os seus fundadores

O dia 24 de junho de 1717 — dia de São João Batista, data escolhida com perfeito sentido simbólico pelos fundadores — marca o nascimento formal da Maçonaria Especulativa como instituição organizada. Nesse dia, as representantes de quatro Lojas londrinas reunidas na Taverna do Ganso e da Grelha elegeram Anthony Sayer como primeiro Grande Mestre da nova Grande Loja de Londres e Westminster.

Quem eram os homens que fundaram esta instituição? Os seus líderes intelectuais são conhecidos: o pastor presbiteriano James Anderson, escocês, que redigiu as Constituições de 1723; o matemático e físico Jean Théophile Desaguliers, de origem francesa huguenote, discípulo pessoal de Isaac Newton; e o antiquário e polímata George Payne, que serviu como segundo Grande Mestre em 1718. Este grupo de fundadores é revelador da natureza da nova Maçonaria Especulativa: são intelectuais do mundo anglófono pós-Revolução Gloriosa, comprometidos com os valores do liberalismo político, da tolerância religiosa e da filosofia natural newtoniana.

A contribuição de Anderson: James Anderson é, de todas as figuras da fundação, a mais influente em termos duradouros. As Constituições de Anderson (1723, revista em 1738) são o documento fundador da Maçonaria Especulativa — o texto que estabeleceu os "Encargos" que ainda hoje regem a Fraternidade, que organizou a narrativa histórica oficial da Ordem (desde Adão até 1723), e que formulou o princípio fundamental da tolerância religiosa maçônica. Anderson foi também o primeiro a sistematizar a divisão dos trabalhadores do Templo de Salomão em Aprendizes, Companheiros e Mestres — uma divisão que é, provavelmente, a sua principal contribuição ao desenvolvimento do ritual maçônico.

A contribuição de Desaguliers: Se Anderson foi o legislador da nova Maçonaria, Desaguliers foi o seu propagandista mais eficaz. Membro da Royal Society, amigo de Newton, físico de reputação europeia, Desaguliers deu à nova Fraternidade o prestígio intelectual de que ela precisava para atrair a aristocracia e a alta burguesia britânica. A sua iniciativa de iniciar membros da nobreza — incluindo, em 1721, o Duque de Montagu, que se tornou o primeiro Grande Mestre nobre — transformou a Maçonaria de uma associação de intelectuais de classe média numa instituição de prestígio social que atravessava todas as camadas da sociedade culta.

O debate Antigos vs. Modernos: A história da Maçonaria britânica do século XVIII foi profundamente marcada pelo conflito entre os "Modernos" (a Grande Loja de 1717 e os seus sucessores) e os "Antigos" (a Grande Loja rival fundada por Laurence Dermott em 1751, que se proclamava guardiã das tradições mais antigas e mais autênticas). Ragon analisa este conflito com ironia: os "Antigos" eram, paradoxalmente, uma criação mais recente do que os "Modernos"; e as tradições "mais antigas" que eles reivindicavam eram frequentemente invenções dos anos 1740 e 1750. O que estava verdadeiramente em jogo era menos uma questão de autenticidade histórica do que uma questão de identidade social e de poder institucional. A reunificação de 1813 — que criou a Grande Loja Unida de Inglaterra — resolveu o conflito político sem resolver as questões históricas subjacentes.

Capítulo III

Os Ritos — Sua Multiplicação e Suas Causas

Da unidade primitiva à proliferação dos sistemas rituais

No princípio, havia apenas um rito — ou antes, havia a ausência de qualquer rito sistematizado: apenas os costumes e as tradições das antigas Lojas Operativas, transmitidos oralmente e praticados com as variações inevitáveis de tempo, lugar e transmissão. A Maçonaria Especulativa de 1717 não tinha, rigorosamente falando, um rito único e codificado: tinha práticas mais ou menos uniformes nos três graus, mas o detalhe das cerimônias variava de Loja para Loja e de jurisdição para jurisdição.

A proliferação dos ritos começou no momento em que a Maçonaria cruzou o Canal da Mancha e se instalou em França. Os franceses — com o seu gênio característico para a sistematização, a elaboração e o refinamento — não se contentaram com os três graus do Craft inglês. Começaram imediatamente a acrescentar graus suplementares, a elaborar cerimônias mais complexas, a desenvolver narrativas históricas e simbólicas mais ricas. Em menos de cinquenta anos, o panorama dos "Altos Graus" tornou-se de uma complexidade quase inextricável.

As causas da proliferação: Ragon identifica várias causas para este fenômeno. A primeira é filosófica: o sentimento, amplamente partilhado pelos Maçons mais cultos do século XVIII, de que os três graus do Craft eram demasiado simples para transmitir a riqueza da herança iniciática que a Maçonaria pretendia preservar. A segunda é social: a vaidade humana que busca títulos, distinções e graus de precedência — e que encontrou na Maçonaria um campo ilimitado de satisfação, com centenas de "graus" e de "dignidades" disponíveis a quem estava disposto a pagar por eles. A terceira é política: o uso dos "Altos Graus" por diversos grupos políticos e religiosos — jesuítas, jacobitas, iluministas, rosacrucianistas — como veículo para as suas doutrinas e as suas agendas particulares.

O resultado: No momento em que Ragon escrevia, a Maçonaria tinha acumulado, segundo o cômputo de vários autores, mais de mil graus diferentes — distribuídos por dezenas de ritos, sistemas e rites qui se reclamam tous de la tradition maçonnique tout en se contredisant mutuellement sur les points essentiels. "Esta proliferação", escreve Ragon, "é o maior obstáculo ao progresso da Maçonaria. Ela dispersa as energias, divide as lealdades, torna impossível qualquer unidade de doutrina, e oferece aos adversários da Fraternidade a mais fácil das munições: o espetáculo de uma instituição que pretende guardar a sabedoria dos séculos e que não consegue sequer acordar consigo mesma sobre o que essa sabedoria é."

Capítulo IV

O Rito Escocês Antigo e Aceito

Crítica histórica e análise filosófica do sistema de trinta e três graus

O Rito Escocês Antigo e Aceito — com os seus trinta e três graus, os seus Supremos Conselhos, os seus Soberanos Grandes Inspetores Gerais e as suas pretensões a uma antiguidade escocesa que os historiadores modernos rejeitam unanimemente — é, para Ragon, o exemplo mais eloquente e mais instrutivo dos paradoxos da Maçonaria do seu tempo.

As origens reais: O Rito Escocês não é escocês. As suas origens estão em França, no período de 1740 a 1780, quando um conjunto de inventores de graus — a maioria franceses, alguns com ligações ao exílio jacobita — produziram a série de graus que mais tarde seria sistematizada no Rito Escocês. O nome "Escocês" deriva da estratégia de legitimação dos inventores, que atribuíam os novos graus a uma suposta tradição escocesa mais antiga e mais autêntica do que a Grande Loja inglesa — uma tradição que não pode ser documentada, mas que soava convincente num contexto em que a Escócia era associada ao mistério, à antiguidade e à nobreza cavalheiresca.

A sistematização formal do Rito em trinta e três graus foi realizada no Supremo Conselho de Charleston, Carolina do Sul, em 1801 — portanto a menos de sessenta anos da data em que Ragon escreve. Os seus fundadores — John Mitchell e Frederick Dalcho, entre outros — proclamaram que o Rito havia sido fundado por Frederico II da Prússia, o Grande, em 1786, e apresentaram um suposto "Grande Constituição" assinada pelo monarca como prova. Ragon demonstra, com documentação incontestável, que este documento é uma falsificação: Frederico II nunca pertenceu ao Rito Escocês, nunca assinou as "Grandes Constituições", e as referências ao Rito nos seus papéis pessoais são inexistentes.

O que o Rito Escocês tem de valioso: Apesar das suas origens controvertidas, Ragon não descarta o Rito Escocês em bloco. Reconhece nele um conjunto de ensinamentos filosóficos genuinamente ricos — especialmente nos graus do Arco Real e da Rosa-Cruz — e uma tentativa, ainda que imperfeita, de construir um sistema coerente de instrução maçônica que leve o candidato desde os rudimentos do Craft até as profundezas do pensamento hermético e pitagórico. O problema do Rito Escocês não é a sua filosofia, mas a sua mitologia histórica — e o remédio não é abandonar o Rito, mas aprender a distinguir, nos seus graus, o que tem substância iniciática real do que é decoração histórica fabricada.

Capítulo V

O Rito Francês e o Rito de Adonhiram

Os sistemas rituais da tradição francesa e a questão da pureza iniciática

O Rito Francês — também denominado Rito Moderno, em contraste com o Rito Escocês — é o sistema ritual criado pelo Grande Oriente de França no final do século XVIII e que representa a contribuição mais característicamente francesa ao desenvolvimento da Maçonaria Especulativa. É um sistema de sete graus que acrescenta aos três graus do Craft quatro "Ordens de Sabedoria": o Eleito Secreto, o Escócia, o Cavaleiro do Oriente e o Cavaleiro Rosa-Cruz.

Ragon tem uma posição nuançada sobre o Rito Francês. Por um lado, valoriza a sua sobriedade relativa — a resistência a multiplicar indefinidamente os graus, a tentativa de construir um sistema coerente com um número limitado de elementos. Por outro lado, critica o caráter frequentemente arbitrário das Ordens de Sabedoria e a sua falta de articulação orgânica com os três graus simbólicos que as precedem.

O Rito de Adonhiram — desenvolvido principalmente por Rosa e pelos seus associados na França do século XVIII — é para Ragon o mais interessante dos ritos menores, precisamente porque tentou de forma mais consciente e mais sistemática do que qualquer outro construir um sistema de instrução filosófica que tivesse uma lógica interna coerente. O nome "Adonhiram" — a forma mais completa do nome de Hiram Abif, derivada das raízes hebraicas que significam "meu Senhor é exaltado" — indica a intenção dos seus criadores: dar ao drama de Hiram uma amplitude e uma profundidade que os três graus do Craft não podiam comportar.

Capítulo VI

Os Graus Simbólicos

Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom — análise do Craft

Os três graus do Craft — Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom — são, para Ragon, a joia mais preciosa da herança maçônica. São os únicos que têm uma legitimidade histórica incontestável, os únicos que se encontram em todas as Lojas regulares do mundo, os únicos cujo simbolismo tem uma coerência e uma profundidade que dispensa qualquer complemento adventício para ser pedagogicamente eficaz.

O Primeiro Grau — Aprendiz: O grau de Aprendiz é o grau da iniciação propriamente dita — da entrada no novo mundo, da aceitação na Fraternidade, do primeiro contacto com os símbolos e os ensinamentos que governarão a vida maçônica do candidato. A cerimônia do Primeiro Grau tem duas características essenciais: a oscilação entre a escuridão e a Luz (o candidato entra vendado, na escuridão, e recebe a Luz no momento da iniciação) e a imposição da Obrigação sobre o Volume da Lei Sagrada. Estas duas características juntas definem o que o grau de Aprendiz ensina: que a vida humana é uma passagem da ignorância ao conhecimento (da escuridão à Luz) realizada sob a tutela da Lei Moral (representada pelo Volume sobre o qual se jura).

As ferramentas do Aprendiz — o Maço e o Cinzel — ensinam que o primeiro trabalho que o Maçom deve realizar é o trabalho sobre si mesmo: a lavragem da sua própria pedra bruta, a remoção das arestas e das irregularidades do caráter que a educação e a experiência ainda não corrigiram. O Maço é a vontade que decide; o Cinzel é a razão que guia; e a pedra que está a ser lavrada é o candidato ele mesmo.

O Segundo Grau — Companheiro: O grau de Companheiro é o grau da instrução — do aprofundamento intelectual que prepara o Aprendiz para as responsabilidades mais graves do Terceiro Grau. A Câmara do Meio — o espaço mítico onde o Companheiro recebe os seus ensinamentos — é o símbolo do domínio do conhecimento humano: as Sete Artes Liberais que o Companheiro estuda são o mapa do mundo intelectual que ele é chamado a conquistar antes de enfrentar o drama existencial do Terceiro Grau.

Ragon observa que o Segundo Grau é, dos três, o mais frequentemente negligenciado na prática ritual das Lojas — e que essa negligência é um erro grave. O Companheiro que não estudou genuinamente as Artes Liberais, que não compreendeu a geometria, a aritmética, a música, a retórica e as outras ciências do currículo, chegará ao Terceiro Grau sem os instrumentos intelectuais necessários para compreender o que nele se passa. A morte e a ressurreição de Hiram são ensinamentos filosóficos profundos — e não podem ser plenamente assimilados por quem não tem o equipamento intelectual do Companheiro.

O Terceiro Grau — Mestre Maçom: O grau de Mestre é o grau do drama — da confrontação com a morte, a perda e a esperança da imortalidade. A narrativa de Hiram Abif — do Grande Mestre assassinado pelos três rufis ões que tentavam extorquir-lhe a Palavra do Mestre — é o veículo de um ensinamento que Ragon considera o mais profundo e o mais universal de toda a Maçonaria: que há valores pelos quais vale a pena morrer; que a integridade do caráter é mais preciosa do que a vida; e que a morte não é o fim da história, mas o limiar de uma existência mais plena.

A "Palavra Perdida" do Terceiro Grau — o segredo que Hiram preferiu levar para o túmulo a revelar — é, para Ragon, o símbolo mais rico e mais aberto de toda a Maçonaria. Não é um segredo técnico ou factual que pode ser comunicado numa frase; é o símbolo da verdade mais elevada que o ser humano pode aspirar — o conhecimento direto e experiencial do Grande Arquiteto do Universo, que nenhuma palavra humana pode adequadamente expressar e que só pode ser "encontrado" — como a Palavra é reencontrada no Arco Real — por quem estiver disposto a trabalhar, a esperar e a esperar.

Capítulo VII

Os Altos Graus

Sua origem, sua natureza e sua utilidade filosófica

Os "Altos Graus" — o conjunto de graus acima do terceiro que os diferentes ritos foram acumulando desde meados do século XVIII — são, na análise de Ragon, um fenômeno ambíguo que merece uma avaliação diferenciada, caso a caso, sem o entusiasmo acrítico dos seus defensores nem o ceticismo destrutivo dos seus adversários.

Do ponto de vista histórico, a maioria dos Altos Graus são criações do século XVIII, sem a antiguidade que os seus fundadores reivindicaram. Do ponto de vista filosófico, porém, alguns deles contêm ensinamentos de real profundidade — especialmente aqueles que exploram as conexões da Maçonaria com as tradições esotéricas do mundo antigo (hermetismo, cabala, pitagorismo) ou com as grandes correntes espirituais do Ocidente cristão (os graus da Rosa-Cruz, da Cavalaria do Templo, da Ordem de Malta).

O critério de avaliação que Ragon propõe é simples: um Alto Grau tem valor iniciático na medida em que acrescenta algo substancial ao que os três graus do Craft já ensinam — um ensinamento mais profundo, uma perspectiva mais larga, um símbolo mais rico. Um Alto Grau que se limita a multiplicar as cerimônias e os títulos sem acrescentar nada de novo à compreensão do Maçom não tem valor iniciático genuíno, independentemente da antiguidade que reivindique ou da pompa das suas cerimônias.

Capítulo VIII

O Cavaleiro de Ramsay e a Influência Jesuítica

O "Discurso de Ramsay" e as teorias sobre a intervenção jesuítica na Maçonaria

O "Discurso de Ramsay" — a célebre alocução pronunciada (ou provavelmente redigida mas não pronunciada) por Andrew Michael Ramsay, Cavaleiro de Ramsay, por volta de 1736–1738 — é um dos textos mais influentes e mais debatidos de toda a literatura maçônica. É o documento que lançou a teoria da origem cruzada e cavalheiresca da Maçonaria, que teve uma influência decisiva sobre o desenvolvimento dos "graus cavaleiros" do Rito Escocês, e que continua a ser um objeto de controvérsia entre os historiadores da Fraternidade.

Ramsay — escocês de nascimento, católico por conversão, tutor de nobres jacobitas em Paris — propôs no seu Discurso que a Maçonaria havia sido fundada pelos Cruzados que, durante as Guerras Santas, haviam se reunido com os pedreiros e os arquitetos das obras defensivas da Terra Santa numa confraria que unia a arte da construção com os ideais cavalheirescos da honra, da lealdade e da caridade. Esta origem cavalheiresca, segundo Ramsay, explicaria a estrutura hierárquica da Ordem e a sua linguagem simbólica de castelos, de cavaleiros e de cruzadas.

Ragon analisa o Discurso de Ramsay com a sua habitual precisão histórica. Do ponto de vista factual, a teoria cavalheiresca de Ramsay é indemonstrada — como todas as outras teorias de origem mítica da Maçonaria. Do ponto de vista literário e filosófico, porém, o Discurso tem uma qualidade rara na literatura maçônica da época: é bem escrito, bem argumentado e genuinamente inspirado por um ideal de Maçonaria universal que transcende as fronteiras nacionais e religiosas. A visão de uma Fraternidade que une os homens de todos os países num ideal comum de humanidade e de progresso moral é, para Ragon, o legado mais valioso de Ramsay — independentemente da validade histórica da sua teoria de origem.

A questão da influência jesuítica sobre o desenvolvimento dos Altos Graus é mais controversa. Vários historiadores — incluindo o abade Barruel — argumentaram que os Altos Graus do Rito Escocês foram inventados por jesuítas que pretendiam usar a Maçonaria como veículo de influência sobre a elite laica. Ragon examina esta teoria com ceticismo: é plausível que alguns ex-jesuítas tenham participado na criação de certos graus, dada a enorme presença da Companhia de Jesus no mundo intelectual francês do século XVIII. Mas a conclusão de que a Maçonaria foi fundamentalmente moldada por uma conspiração jesuítica parece a Ragon excessiva e não documentada.

Capítulo IX

O Simbolismo Maçônico

Hiram, o Templo, a Acácia e os instrumentos do canteiro

O simbolismo maçônico — o conjunto de imagens, de narrativas e de instrumentos que a Maçonaria usa para comunicar os seus ensinamentos — é, para Ragon, o aspecto mais genuinamente valioso e mais filosoficamente rico da Fraternidade. É a herança que sobrevive a todas as disputas históricas sobre a origem e a autenticidade dos ritos, porque o valor de um símbolo não depende da sua antiguidade, mas da sua capacidade de despertar no iniciado intuições profundas sobre a natureza do ser humano e do universo.

A Acácia: A Acácia — o ramo de acácia que marca o lugar onde Hiram Abif foi enterrado, e que é um dos símbolos mais carregados de significado de toda a Maçonaria — merece, segundo Ragon, uma análise que vai além das interpretações habituais. A acácia (Acacia vera ou Acacia nilotica, a espécie provavelmente em jogo na narrativa bíblica) é uma planta que combina, na sua natureza física, as qualidades que o simbolismo maçônico lhe atribui: é uma árvore extremamente resistente, que sobrevive em condições de seca extrema onde outras plantas perecem; os seus espinhos protegem o seu tronco contra os animais que poderiam destrui-la; e a sua madeira é de uma dureza e de uma durabilidade excepcionais. É portanto, na natureza, o símbolo perfeito da alma imortal que sobrevive à morte do corpo — persistindo, como a acácia no deserto, através de todas as adversidades que o tempo e o sofrimento podem infligir ao ser mortal.

O Esquadro e o Compasso: O Esquadro — o instrumento que verifica e traça os ângulos retos — e o Compasso — o instrumento que traça os círculos e mede as distâncias — formam juntos o par de símbolos mais característico da Maçonaria, e aquele que mais precisamente define a sua missão. O Esquadro representa a lei moral que regula as relações humanas: a norma que mede se uma ação é "reta" ou "torta", justa ou injusta. O Compasso representa os limites que a razão e a virtude impõem às paixões: o círculo dentro do qual os desejos podem se exercer sem exceder as fronteiras do que é moralmente admissível.

As Colunas Jachin e Boaz: As duas colunas de bronze à entrada do Templo de Salomão — Jachin (à direita, o Sul) e Boaz (à esquerda, o Norte) — são uma das heranças simbólicas mais diretamente derivadas da narrativa bíblica, e portanto uma das que têm a maior legitimidade histórica na tradição maçônica. Os seus nomes hebraicos — "Ele estabelecerá" (Jachin) e "Nele está a Força" (Boaz) — formam juntos uma proclamação da confiança dos construtores: "Pela força de Deus, ele estabelecerá (este Templo) para sempre."

Capítulo X

A Moral Maçônica

Virtudes, deveres e princípios — a ética da Fraternidade

A moral maçônica — o conjunto de princípios éticos que a Fraternidade ensina aos seus membros e que constitui o núcleo do seu programa de aperfeiçoamento do ser humano — é, segundo Ragon, o aspecto da Maçonaria que menos necessita de defesa e que mais claramente justifica a existência da Ordem. É também o que mais claramente distingue a Maçonaria genuína das suas imitações e dos seus desvios: uma Loja que não forma homens mais virtuosos, mais justos e mais fraternos não é uma verdadeira Loja Maçônica, independentemente da regularidade do seu ritual e da autenticidade das suas credenciais.

A moral maçônica se articula em torno de quatro grandes virtudes — as Virtudes Cardinais herdadas da filosofia clássica: a Prudência, que guia a razão prática; a Fortaleza, que sustenta a vontade diante das adversidades; a Temperança, que modera os apetites e as paixões; e a Justiça, que assegura a cada um o que lhe é devido. A estas quatro virtudes cardinais, a Maçonaria acrescenta a Caridade — o amor ativo ao próximo que se traduz em obras concretas de assistência e de generosidade — e a Verdade — a integridade intelectual e moral que não transige com a mentira, nem na esfera pública nem na privada.

Ragon insiste que a moral maçônica não é uma moral especial ou esotérica que substitui a moral comum. É a moral comum elevada à sua expressão mais clara e mais exigente — a moral que todos os seres humanos reconheceriam como válida se raciocinam com honestidade, e que a Maçonaria apresenta não como um conjunto de mandamentos impostos do exterior, mas como um conjunto de verdades que cada Maçom deve descobrir por si mesmo, através da contemplação dos símbolos e do drama iniciático.

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Segunda Parte

A Maçonaria Oculta

As ciências cognatas — psicologia, magnetismo, fenomenologia do oculto e simbolismo animal

Capítulo XI

Da Psicologia e das Faculdades da Alma

O estudo científico da mente humana como complemento do programa maçônico

A Maçonaria tem como objetivo central o aperfeiçoamento do ser humano — mas este aperfeiçoamento pressupõe um conhecimento adequado do ser humano que se quer aperfeiçoar. É por isso que o estudo da psicologia — o conhecimento das faculdades da alma humana, dos mecanismos da mente, dos processos pelos quais o ser humano percebe, pensa, sente e decide — é, para Ragon, não um complemento opcional ao programa maçônico, mas um elemento central da formação do Maçom culto.

A psicologia do século XIX — que Ragon ainda conhece principalmente através da filosofia escocesa do "senso comum" (Reid, Stewart, Hamilton) e da frenologia de Gall e Spurzheim — é, evidentemente, muito diferente da psicologia científica que se desenvolverá na segunda metade do século. Mas os princípios que Ragon extrai desta psicologia para a aplicação maçônica têm uma validade que transcende os limites das teorias específicas em que se baseiam.

O mais fundamental desses princípios é a distinção entre as faculdades intelectuais (razão, memória, imaginação, julgamento) e as faculdades afetivas (sentimentos, paixões, desejos), e a afirmação de que o aperfeiçoamento humano consiste em desenvolver as faculdades intelectuais ao máximo e em subordinar as faculdades afetivas à direção da razão — não suprimindo as paixões (o que seria impossível e indesejável), mas ordenando-as e moderando-as. Esta é a psicologia implícita da moral das Quatro Virtudes Cardinais, e é também a psicologia dos instrumentos simbólicos da Maçonaria: o Compasso que limita, o Nível que equaliza, a Plomada que endireita.

Capítulo XII

A Frenologia e o Conhecimento Iniciático

O estudo das aptidões naturais como complemento da formação do caráter

A frenologia — a teoria de Franz Joseph Gall (1758–1828) que afirmava ser possível determinar as aptidões e os traços de caráter de um indivíduo pela análise da forma do crânio — foi, nas primeiras décadas do século XIX, uma das mais populares e das mais influentes das ciências do espírito. Ragon, escrevendo em 1853, ainda a trata como uma contribuição científica legítima ao conhecimento do ser humano — o que, à luz da ciência posterior, é um erro que devemos contextualizar historicamente.

O que é importante para a compreensão do pensamento de Ragon não é a validade científica da frenologia em si, mas o uso que ele faz dela no contexto do programa maçônico de formação humana. Para Ragon, o valor do estudo das aptidões naturais — seja através da frenologia ou de qualquer outro método — é que ele permite ao educador e ao iniciador adaptarem os seus métodos às características específicas do candidato. Um Maçom que tem aptidões naturais para a reflexão abstrata precisa de um programa de instrução diferente de um que tem aptidões para a ação prática; um candidato com temperamento colérico precisa de exercícios de moderação diferentes de um com temperamento melancólico. O conhecimento das aptidões naturais é, neste sentido, o fundamento de uma pedagogia iniciática genuinamente eficaz.

Capítulo XIII

O Magnetismo Animal e o Sonambulismo

Mesmer, Puységur e os fenômenos das faculdades extrassensoriais

O "magnetismo animal" — a teoria desenvolvida por Franz Anton Mesmer (1734–1815) segundo a qual existe um fluido universal que permeia todos os corpos e cujo equilíbrio determina a saúde física e mental — foi o fenômeno científico e social mais controverso do final do século XVIII e do início do século XIX. Ragon aborda-o com uma abertura que é característica do seu temperamento: nem a aceitação acrítica dos magnetizadores entusiastas nem o ceticismo destrutivo dos seus adversários, mas a tentativa de separar o que tem fundamento empírico real do que é exageração e fantasia.

O que Mesmer e os seus seguidores descobriram — independentemente da validade da teoria do "fluido magnético" — foi um conjunto real de fenômenos que a ciência posterior viria a explicar em termos muito diferentes: os estados hipnóticos, o sonambulismo artificial, a sugestão, a anestesia hipnótica e a cura psicossomática de algumas doenças. Estes fenômenos são reais — foram observados por centenas de experimentadores competentes e não podem ser descartados por puro ceticismo. O que é questionável é a teoria mesmeriana que os explica; o que é inegável é a existência dos fenômenos que ela pretendia explicar.

Para Ragon, a importância do magnetismo animal para a Maçonaria é dupla. Em primeiro lugar, demonstra que a consciência humana tem capacidades que excedem o que a psicologia racional convencional supõe — que existem estados de consciência (o sonambulismo, a transe hipnótica) em que o ser humano parece ter acesso a informações e a aptidões que normalmente não estão disponíveis à consciência quotidiana. Em segundo lugar, sugere que os estados alterados de consciência que as cerimônias iniciáticas produzem no candidato não são mera encenação teatral, mas têm um efeito psicológico real — que pode ser compreendido nos termos da psicologia do magnetismo, da sugestão e do transe.

Capítulo XIV

Os Animais Simbólicos

O Cão, o Lobo, o Leão, a Águia e a Fênix — zoologia iniciática

Em todas as tradições religiosas e iniciáticas da humanidade, os animais desempenham um papel simbólico de primeira importância. Os deuses egípcios têm cabeças de animais; os evangelistas cristãos são representados por quatro animais (o leão, o touro, a águia e o anjo); o zodíaco da astrologia é um bestiário sagrado; e a Maçonaria, herdeira de todas essas tradições, preservou no seu simbolismo um conjunto de animais cuja análise revela camadas de significado que a maioria dos iniciados nunca chegou a explorar adequadamente.

O Leão: O Leão — o "rei dos animais", o símbolo solar por excelência, o emblema da força, da coragem e da majestade — ocupa o lugar mais honroso no simbolismo maçônico. É o animal associado à constelação de Leão, através da qual o Sol passa durante os meses de verão — os meses de maior calor e de maior luz. Na tradição hebraica, o Leão é o emblema da tribo de Judá — a tribo real, a tribo de Davi e de Salomão. Na Maçonaria do Terceiro Grau, a "pega do Leão" é o símbolo por excelência da elevação do Maçom da morte à vida — o aperto que Osiris-Hiram recebe da mão do iniciador para sair do estado de morte simbólica.

A Águia: A Águia — o pássaro do Sol, o único animal que, segundo a crença antiga, pode olhar diretamente para o Sol sem se cegar — é o símbolo da contemplação intelectual mais elevada: a capacidade de dirigir a mente para a Verdade mais luminosa sem ser esmagado pela sua intensidade. Na tradição grega, a Águia é o pássaro de Zeus; na romana, o emblema do Império; na evangélica, o símbolo de João, o Evangelista (o apóstolo da contemplação, o autor do Evangelho mais místico e mais "aéreo"). Na Maçonaria do Rito Escocês, a Águia de trinta e dois graus — o emblema do grau imediatamente abaixo do 33.° — é o símbolo do Maçom que atingiu o patamar mais elevado do conhecimento que a iniciação pode conferir.

A Fênix: A Fênix — o pássaro mítico que morre na chama e renasce das suas próprias cinzas — é o símbolo maçônico mais diretamente ligado ao tema central do Terceiro Grau: a morte e a ressurreição. É a expressão zoológica da convicção que Hiram Abif personifica na narrativa ritual: que a morte não é o fim, mas a transformação; que o ser que entra na chama e desaparece não perece, mas se transforma em algo mais luminoso e mais perfeito do que era antes da provação.

Capítulo XV

A Força Od e os Fenômenos da Natureza Oculta

A investigação de Karl von Reichenbach e a fronteira do conhecimento científico

O Baron Karl von Reichenbach (1788–1869) — químico e geólogo alemão de reputação científica estabelecida (foi o descobridor da parafina e do créosoto) — publicou a partir de 1844 uma série de trabalhos sobre o que denominou "força Od" ou "força Ódica": um suposto campo de energia que emanaria de todos os corpos vivos e inorgânicos, e que seria perceptível por indivíduos sensitivos como uma luminosidade visível no escuro ou como sensações de calor e frio nas mãos.

Ragon aborda os trabalhos de Reichenbach com o mesmo equilíbrio crítico com que abordou o magnetismo de Mesmer: tomando a sério os fenômenos observados (que Reichenbach documentou com considerável rigor experimental) sem aceitar necessariamente a teoria que os explica. O que os trabalhos de Reichenbach sugerem — e o que é relevante para o programa maçônico — é que existe uma dimensão da realidade física que a ciência convencional ainda não sabe medir ou classificar, e que a sensibilidade de certos indivíduos lhes permite perceber aspectos da realidade que a maioria das pessoas não percebe.

Para Ragon, estes fenômenos têm uma importância para a compreensão da cerimônia iniciática: as cerimônias maçônicas — com a sua atmosfera cuidadosamente controlada, os seus efeitos de luz e de escuridão, as suas músicas e os seus silêncios, as suas palavras pronunciadas num tom específico — agem sobre o candidato não apenas ao nível intelectual e emocional, mas também ao nível do que Reichenbach chamaria o "campo ódico" — a dimensão subtil da sua sensibilidade física que as experiências comuns raramente tocam.

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Terceira Parte

A Iniciação Hermética

Os Mistérios Antigos, a astronomia sagrada, a alquimia, os gênios e a cosmovisão iniciática universal

Capítulo XVI

Os Mistérios da Antiguidade

Da Grécia ao Egito — a tradição iniciática universal e a sua relação com a Maçonaria

Os Mistérios da Antiguidade — os Mistérios de Elêusis dedicados a Deméter e a Perséfone; os Mistérios Dionísicos; os Mistérios Orficos; os Mistérios de Ísis e Osíris no Egito; os Mistérios de Mitras no Império Romano — constituem o horizonte mais amplo dentro do qual a Maçonaria deve ser compreendida e avaliada. Não porque a Maçonaria descenda historicamente de qualquer um desses Mistérios (o que, como já vimos, não está documentado), mas porque todos esses Mistérios e a Maçonaria compartilham uma estrutura comum e um objetivo comum: a transformação interior do iniciado através de um processo ritual progressivo que combina instrução intelectual, impacto emocional e simbolismo da morte e da ressurreição.

A estrutura comum dos Mistérios: Todos os grandes Mistérios da Antiguidade partilham um conjunto de características estruturais que os distinguem da religião pública: são acessíveis apenas a um grupo seleto de candidatos que passaram por um processo de seleção e de preparação; são graduados em níveis ou graus de crescente profundidade e gravidade; impõem ao iniciado o sigilo sobre o que foi revelado no interior do santuário; centram-se numa narrativa mítica de morte e de ressurreição (a descida de Perséfone ao Hades e o seu retorno, a morte e o desmembramento de Dionísio e a sua ressurreição, a morte de Osíris pelas mãos de Seth e a sua ressurreição pela intervenção de Ísis); e afirmam conferir ao iniciado, além de um conhecimento mais profundo da realidade, uma esperança mais segura de vida após a morte.

Elêusis: Os Mistérios de Elêusis — celebrados durante mil e novecentos anos, de aproximadamente 1500 a.C. até ao encerramento do santuário pelo imperador Teodósio em 392 d.C. — são os mais célebres e os mais documentados dos Mistérios gregos. Iniciados ilustres como Platão, Sócrates, Ésquilo e Cícero participaram das suas cerimônias. A narrativa central é o rapto de Perséfone por Hades, a busca desesperada de Deméter pela filha perdida, e o acordo que permitiu a Perséfone retornar ao mundo dos vivos durante seis meses por ano — criando assim o ciclo das estações. No nível simbólico, a narrativa expressa a esperança da vida além da morte: a alma (Perséfone) que desce ao Hades (morte) e que retorna ao mundo luminoso (ressurreição).

A relação com a Maçonaria: A relação entre os Mistérios Antigos e a Maçonaria é, para Ragon, a de dois sistemas que expressam a mesma verdade profunda em linguagens diferentes e em contextos históricos diferentes. A verdade profunda é esta: que o ser humano, por natureza, não se satisfaz com a existência superficial e quotidiana — que há em cada ser humano uma aspiração ao conhecimento mais profundo, à comunidade mais autêntica e à esperança de uma vida que transcende a morte. Os Mistérios Antigos e a Maçonaria são, cada um à sua maneira, respostas institucionais a essa aspiração universal.

Capítulo XVII

As Planetas nos Sistemas Iniciáticos

A astronomia sagrada e o simbolismo dos sete astros errantes

A astronomia — e, antes que a astronomia científica moderna existisse, a astrologia — foi durante milénios a ciência mais diretamente relacionada com o sagrado. Os astros eram, para os povos da Antiguidade, entidades divinas ou manifestações das divindades — e a observação dos seus movimentos era simultaneamente uma ciência (que permitia calcular o calendário, prever as estações e orientar a navegação) e um ato religioso (que revelava a vontade dos deuses e o destino dos mortais).

Os sete "planetas" dos antigos — o Sol, a Lua, Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno — são os sete corpos celestes visíveis a olho nu que se movem contra o fundo fixo das estrelas, e que por isso eram distintos das "estrelas fixas" e considerados "errant es" (do grego planétai, errantes). A estes sete planetas foram associados, em todas as tradições antigas — suméria, babilônica, grega, romana, árabe —, um conjunto de qualidades, de divindades e de correspondências com a natureza terrestre que constituem o fundamento da astrologia simbólica.

Na tradição iniciática — nos Mistérios de Mitras, nos sistemas gnósticos, na Cabala e no Hermetismo —, os sete planetas correspondem às sete "esferas" que a alma deve atravessar na sua ascensão desde o mundo material até à Divindade: uma cosmologia da ascensão espiritual que usa a estrutura astronômica do sistema solar como metáfora da progressão iniciática. Cada planeta representa um obstáculo e uma aprendizagem: Saturno (o mais distante, o mais frio, o mais austero) representa a disciplina e o renúncia; Júpiter, a sabedoria e a justiça; Marte, a energia e a coragem; o Sol, a iluminação e a verdade; Vénus, o amor e a beleza; Mercúrio, a inteligência e a comunicação; a Lua, a imaginação e o inconsciente.

Para Ragon, esta cosmologia planetária é relevante para a Maçonaria de duas maneiras. Primeira: a estrutura de sete graus (ou de múltiplos de sete) que muitos sistemas rituais usam tem provavelmente a sua origem, consciente ou inconsciente, na cosmologia dos sete planetas. Segunda: o ideal do Maçom que "ascende pela escada do conhecimento" — que progride gradualmente de grau em grau, de instrução em instrução, até a Luz suprema — é estruturalmente idêntico ao ideal do iniciado dos Mistérios que ascende pelas sete esferas planetárias até à presença do Divino.

Capítulo XVIII

A Alquimia e a Filosofia Hermética

Da transmutação dos metais à transmutação da alma

A Alquimia — a arte milenar da transmutação dos metais, que buscava transformar os metais vulgares em ouro e prata, e descobrir a "pedra filosofal" que conferiria saúde perfeita e vida longa — é uma das fontes filosóficas mais ricas do simbolismo maçônico, e uma das mais frequentemente incompreendidas pelos iniciados que se limitam à sua dimensão exterior e química.

A Alquimia tem, como todos os grandes sistemas simbólicos da tradição iniciática, dois níveis de leitura. O nível exterior — o da alquimia "laboratorial", que busca literalmente transformar o chumbo em ouro através de operações químicas — é o nível que os adversários da tradição sempre ridicularizaram, e não sem razão: nenhum alquimista, por mais hábil que fosse, jamais transformou o chumbo em ouro por meios puramente químicos. Mas o nível interior — o da alquimia "espiritual", que usa as operações do laboratório como metáforas de um processo de transformação interior — é um sistema filosófico de profundidade genuína, que descreve com precisão o processo pelo qual o ser humano se transforma de um estado de "metal vulgar" (ignorância, vício, servidão às paixões) para um estado de "ouro" (sabedoria, virtude, liberdade interior).

As operações alquímicas como metáforas espirituais: As quatro operações fundamentais da Alquimia — a Calcination (calcinação — a redução do metal à sua essência pela ação do fogo), a Solutio (dissolução — a dissolução do resíduo calcinado num líquido), a Coagulatio (coagulação — a recristali ação da substância purificada) e a Sublimatio (sublimação — a elevação da substância ao seu estado mais sutil e mais puro) — correspondem, no plano espiritual, às etapas do processo de transformação interior: a destruição das formas habituais de pensar e de agir (calcinação); a abertura ao desconhecido que essa destruição liberta (dissolução); a cristalização de uma nova forma de ser mais autêntica e mais coerente (coagulação); e a elevação do ser transformado ao contacto com o que o transcende (sublimação).

Este processo é, estruturalmente, o mesmo processo que o drama do Terceiro Grau encena com o personagem de Hiram Abif: a destruição (o assassínio), a busca (a procura do corpo), a reconstrução (a elevação) e a glorificação (a Palavra Reencontrada). A Alquimia e o Terceiro Grau maçônico são, neste sentido, duas expressões da mesma verdade iniciática em linguagens diferentes.

Capítulo XIX

Os Gênios, os Espíritos e os Anjos Guardiões

A cosmologia dos seres intermediários na tradição iniciática

A crença em seres intermediários entre o ser humano e a Divindade — chamados daimones pelos gregos, genii pelos romanos, anjos e arquétipos pela tradição judaica e cristã, jinn pelo Islão, devas pelo hinduísmo — é uma das crenças mais universais e mais persistentes da história religiosa da humanidade. Não há cultura conhecida que não tenha desenvolvido, de alguma forma, a ideia de que o universo é habitado por seres de natureza intermédia entre a Divindade transcendente e os seres humanos mortais.

Ragon aborda esta crença não como uma superstição a ser descartada, mas como um dado antropológico de primeira importância — uma forma de o espírito humano expressar a sua intuição de que o universo não é vazio entre Deus e o ser humano, que existe uma cadeia de ser que conecta os dois extremos, e que o ser humano não está sozinho nesta vasta realidade que se estende além da sua percepção imediata.

No contexto da tradição iniciática, os Gênios e os Anjos Guardiões têm um papel pedagógico específico: são os guias da alma em ascensão — os mentores invisíveis que orientam o iniciado no seu percurso pelas diferentes "esferas" do conhecimento e da experiência espiritual. O "Gênio Bom" de Sócrates — o daimonion que o advertia quando estava prestes a cometer um erro —, o anjo que acompanha o iniciado nos Mistérios de Mitras, o "Santo Anjo Guardião" que o Maçom do Rito Escocês busca "contatar" no grau do Santo Real Arco: são todas expressões diferentes da mesma intuição — que o crescimento espiritual do ser humano é acompanhado e guiado por uma presença que o transcende.

Capítulo XX

Conclusão

Para uma Maçonaria Filosófica e Universal

Chegamos ao fim desta longa exploração da herança intelectual e iniciática da Maçonaria — uma exploração que nos levou dos documentos medievais das corporações de pedreiros inglesas até aos Mistérios Eleusinos, do ritual do Terceiro Grau até à alquimia hermética, dos graus do Rito Escocês até à cosmologia dos Gênios e dos Anjos Guardiões. O que podemos concluir?

A conclusão principal de Ragon é simultaneamente simples e exigente: a Maçonaria tem um valor genuíno e uma missão filosófica autêntica — mas só pode realizar esse valor e essa missão se os seus membros a compreenderem com profundidade e a praticarem com seriedade. Uma Maçonaria que se contente com cerimônias bem executadas sem que os seus membros compreendam o significado dos símbolos; que acumule graus e títulos sem que os iniciados os aprofundem filosoficamente; que proclame a busca da Luz sem que os seus Irmãos se submetam ao trabalho sério do autoconhecimento e do aperfeiçoamento moral — essa Maçonaria não está à altura da sua herança.

A Orthodoxia Maçônica que Ragon propõe não é a ortodoxia de um dogma ou de um rito, mas a ortodoxia de uma atitude: a atitude do Maçom que busca genuinamente a Luz — que está disposto a questionar as tradições que recebeu, a distinguir o que tem fundamento do que não tem, a aprofundar o que merece aprofundamento e a abandonar o que não tem substância. Esta atitude — que Ragon chama de "espírito filosófico" — é, para ele, a marca do verdadeiro Maçom em qualquer rito, em qualquer jurisdição, em qualquer época.

O sonho de uma Maçonaria universal: A Maçonaria que Ragon imagina no horizonte do futuro é uma Maçonaria que transcende as divisões de rito e de sistema que o século XVIII criou — uma Fraternidade que reúne, num mesmo ideal de humanidade, de razão e de fraternidade, todos os homens que compartilham a convicção de que a vida humana tem uma dimensão que vai além do quotidiano, que o ser humano é mais do que um animal racional que busca o prazer e evita a dor, e que a grande aventura do espírito humano — a busca da Verdade, da Beleza e da Bondade — merece ser vivida com toda a seriedade, toda a paixão e toda a humildade de que somos capazes.

Esta é a Maçonaria de Ragon — não a Maçonaria que ele encontrou, mas a Maçonaria que ele sonhou e para a qual trabalhou durante cinquenta anos de estudo e de reflexão. Uma Maçonaria que é, ao mesmo tempo, fiel à sua herança mais genuína e aberta ao melhor do conhecimento humano de cada época. Uma Maçonaria que não teme a crítica porque sabe que a verdade não tem nada a temer da investigação honesta. Uma Maçonaria que honra os seus mortos não repetindo as suas fórmulas, mas continuando com novos instrumentos o trabalho que eles começaram.

"A Maçonaria não é um fim em si mesma. É um método — o mais antigo, o mais consistente e o mais universalmente testado que a humanidade conhece — de tornar o ser humano mais humano. O dia em que compreendermos plenamente este método e o aplicarmos com toda a sua força, a Maçonaria terá cumprido a sua missão. E nesse dia, ela será ao mesmo tempo menos necessária e mais gloriosa do que em qualquer outro momento da sua história."
— J.-M. Ragon, Orthodoxie Maçonnique, Paris, 1853
⚜ · FIM DA TRADUÇÃO INTEGRAL · ⚜